Barroselas

«Alminhas» da Neiva

3 Maio 2017

Segundo no conta a história, a devoção às «Alminhas» é de origem Portuguesa. E foi o piedoso Luís Álvares de Andrade ( Séc. XVI) da cidade de Lisboa, que tão devoto era das almas do Purgatório, que mandou pintar quadros alusivos ao Purgatório, a que o povo chama «Alminhas» , e distribuí-as por todos os cantos da terra Portuguesa. Esta devoção foi recebida com carinho pelas gentes das Terras do Neiva, que colocou nos muros e recantos esses quadros tão belos e graciosos.

E é nestes retábulos ingénuos de humildes pintores anónimos, simples curiosos de aldeia sem mestres e sem escola, que se erguem ao alto nos muros ou largos, em nicho gracioso e rude pintado com amor e uma certa infantilidade. Eles por aí estão esquecidos a dormir o sono dos séculos em nichos de pedra rústica, ou capelinhas com pequenas grades de ferro, que a crença popular das gentes de outrora, ergueram e construíram com devoto enternecimento.

Tal como outrora, ainda hoje se erguem nichos de «Alminhas» a perpetuar uma data, uma devoção ou um gosto. E com uma história simples, como todas as que rodeiam este símbolo de religiosidade popular, aqui fica a história das «Alminhas Da Neiva». Estas «Alminhas» estão colocadas no muro da Quinta de Fora, pertença do Sr. José Rodrigues «Medros», no Lugar da Foz, Barroselas.

Segundo contam já houve ali naquele jardim um nicho, que desapareceu sem deixar rastos. A pedra destas «Alminhas» veio do lugar de Arques Vila de Punhe, oferecida pelo Sr. David da Silva Pereira. Já eram «Alminhas», mas a pedra encontrava-se no monte de entulho para servir de aterro. A pedra, foi levada a polir e a colocar a cruz à Firma Miranda & Santos, com oficina em Laceiras, Fragoso. Com um trabalho perfeito, ofereceram a mão-de-obra e a cruz. O símbolo, que as carateriza foi feito e oferecido pelo nosso artista e ceramista José Pacheco Afonso Branco. O José pôs toda a sua imaginação e gosto popular, na peça de raro valor artístico, esta feita em grés. Neste quadro, podemos ver a cruz ao alto, o arcanjo S. Miguel com a balança, e no fundo as «almas» implorando a salvação. Mas para que esta obra de arte fosse protegida foi pedida a colaboração do amigo Abel Gonçalves Maciel, que fez um gradeamento e o ofertou. É uma obra de mestre em ferro forjado.

Com tudo pronto, local escolhido, são colocadas as «Alminhas» da Neiva, no dia 20 de Agosto de 1984, por amigos de Forjães, que as colocam gratuitamente. Aqui fica o agradecimento a todos os artistas que colaboraram e ofereceram o seu trabalho, em benefício deste pedaço de Património de Barroselas. São um bom exemplo, de que muito se pode fazer, pois o nosso povo tem boa vontade, não regateia ofertas, quando essas são bem empregues. Fica aqui um apelo á Junta, a todo o povo da freguesia, que apoie a iniciativa do jornal «O Vale do Neiva», para a recuperação das «Alminhas» de Barroselas.

Temos na freguesia 22 nichos de «Alminhas», 8 estão sem o motivo que as carateriza. No entanto se algum popular tomar a iniciativa de recuperar alguma deve ter em atenção o material a usar, pois deve ser em madeira, pedra ou barro, e nunca azulejos estampados ou outro material. Estamos a contactar artistas da nossa terra, para assim colaborarem nesta recuperação do património, perpetuando ao mesmo tempo o seu nome. Convidam-se pintores, pedreiros, escultores e ceramistas para esta iniciativa. Contacte-nos. E para ficar uma ideia do que se quer, antigamente as «Alminhas» eram pintadas directamente na pedra, ou numa tábua de boa madeira.

Nas «Alminhas» da Neiva, vai ser colocada uma lanterna e talvez uma caixa de esmolas, que reverterão a favor da recuperação das outras. Amigos as «Alminhas» da Neiva, ali estão no muro, no Lugar da Foz, recordando aos viandantes «Oh vós, lembrai-vos de nós».

Manuel Delfim da Silva Pereira
In «Jornal O Vale Do Neiva»
Novembro 1986
A Redação

Foto: “Foto atual”

 


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