Rio Neiva

Acção de controlo de infestante no rio Neiva

15 Novembro 2017

Há já alguns anos que o rio Neiva tem vindo a ser alvo de um ataque provocado por uma espécie de planta aquática exótica. À priori, supunha-se que se tratava da Elodea canadensis, nativa da América do Norte. No entanto, numa análise mais atenta, verificou-se que se trata de uma espécie muito mais expansiva: a Egeria densa, oriunda do Brasil.

Quer uma espécie, quer outra, são habitualmente comercializadas no nosso país para variados fins, nomeadamente, em aquários, como objecto de estudo nas aulas de biologia, etc. É muito provável que algum descuido no seu manuseamento tenha feito chegar alguns fragmentos até qualquer linha de água e, daí até ao rio, foi uma questão de tempo! Não se aplicará neste caso, mas importa referir que é interdito por lei a introdução intencional de espécies não indígenas na natureza (D.L.565/99 de 21/12).

Sabe-se que esta espécie se reproduz vegetativamente (não necessita de raiz nem sementes), por isso, e encontrando as condições ideais, e sem os “consumidores” habituais do seu meio natural, pode propagar-se muito rapidamente. E este ano as condições foram especialmente favoráveis: a falta de cheias durante o inverno, que pode levar à estagnação precoce da água, a acumulação de lamas no fundo do leito do rio impregnadas de nitratos, provenientes da actividade agrícola e agropecuária, fizeram com que surgissem colónias gigantescas nunca antes vistas.

A situação não seria tão preocupante se não houvessem troços do rio completamente bloqueados, de margem a margem, de tal forma que algumas espécies da ictiofauna terão alguma dificuldade em progredir no leito do rio. Será o caso da truta, que é uma espécie habituada a águas mais livres.

Estas colónias são de tal forma compactas que, à superfície, se forma uma película de água estagnada, onde se acumula o pó e vegetação morta, criando assim as condições ideais para proliferação do mosquito, com todas as consequências que daí advêm. A prova dessa estagnação está no facto de aparecerem aí colónias de lentilhas d’água, espécie minúscula típica dos charcos e pântanos, que lhes confere uma tonalidade verde florescente.

Isto são tudo consequências do que as espécies invasoras podem trazer. Normalmente originam o aparecimento de “nichos” artificiais num ecossistema habituado às outras espécies autóctones, o que poderá resultar num desequilíbrio na biodiversidade nativa e até tomarem o lugar de algumas espécies. É o caso da espécie autóctone mais parecida, a “Rabo de raposa” (Ceratophylum demersum), que está a ficar sem espaço de sobrevivência.

Verifica-se a presença desta invasora desde a Ponte das Tábuas, em Balugães, praticamente até à foz, sendo que, as áreas mais críticas estão localizadas no espaço entre Durrães, Barroselas e Tregosa.

Não há muito a fazer para controlar esta praga, a não ser: umas boas cheias, o arranque, pela raiz, e secagem, e “fechar as torneiras” das fontes dos nitratos que as alimenta. Aqui as autoridades têm um papel fundamental, o que parece estar a falhar!

Numa tentativa de reverter esta extraordinária situação, um grupo de cidadãos, conhecedores do leito do rio Neiva, e com o apoio das colectividades que representam (Padela Natural-Associação Promotora, CNE-Agrup. 85 de Barroselas e Grupo Cénico de Barroselas), tomaram a iniciativa de levar a cabo algumas acções, quer práticas, no terreno, quer de sensibilização, através das redes sociais, de forma a envolver toda a comunidade da região do Neiva no combate a esta praga.

A primeira acção, no terreno, aconteceu no passado dia 30 de setembro, numa das áreas mais afectadas: junto à “praia” fluvial de Vale, em Barroselas. Foi apoiada por mais de duas dezenas de voluntários, os quais, em cerca de três horas, retiraram várias centenas de quilos daquelas plantas infestantes, colocando-as fora do alcance da “linha de cheia”, para secarem. De referir que este espaço balnear passou o verão só com cerca de 40% de água livre!

Por ser inédita, esta iniciativa serviu para testar métodos e meios idealizados, pois nenhum dos organizadores tinha experiência neste tipo de intervenção.

Embora tenha corrido como previsto, ficou-se com a sensação que esta não será uma tarefa fácil. Fará falta a ajuda de todos. Nesse sentido, apela-se aos cidadãos que frequentam alguns espaços, junto ao rio, que percam alguns minutos a “mondar” as invasoras que puderem, principalmente em locais de maior concentração. Convém, no entanto, que se saiba distinguir a espécie invasora da autóctone, para não se cair num problema ainda maior.

Num inverno normal, as cheias são uma das principais formas de controlo desta praga. Espera-se, portanto, que o próximo as traga (com alguma energia) para que posteriormente se possa reavaliar a situação e voltar, se necessário, com novas estratégias de controlo.

Entretanto, não há que ter problemas de consciência em eliminar esta invasora: ela não faz, nem nunca fez, parte do ecossistema do rio Neiva.

Raimundo Castro – PNAP


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