Entrevista

Entrevista à Irmã Teresa Ribeiro de Miranda 

8 Abril 2018
Entrevista à Irmã Teresa Ribeiro de Miranda

 

Filiação da Irmã Teresa: filha de Gremino Fernandes de Miranda e de Olívia Ribeiro de Miranda, nasceu na freguesia de Tregosa, Concelho de Barcelos e Distrito de Braga. 

Infância: – Uma infância normal. A minha Família era grande vivia sob a atenção dos Pais e até já dos irmãos mais velhos de quem recebia orientação e obediência, lembra-me das minhas traquinices, mas também já era inclinada para o espiritual e atos de piedade. 

Chamamento: – Em relação a um chamamento vocacional nada entendia. Simpatizava com as Religiosas que na altura eram (mendicantes) passavam pela Paróquia penso que uma vez no ano e algumas vezes eram acompanhadas às casas pelas minhas irmãs já jovens. Lembra-me que na escola um dia a professora mandou fazer uma redação para dizermos o que queríamos ser mais tarde, na minha redação disse que queria ser Religiosa, a professora apoiou-me muito mas os colegas começaram-me a chamar “freirinha “eram a brincar, mas eu nunca liguei. Mais tarde fui como as outras jovens do tempo, falei com alguns jovens, mas com experiências passageiras. De alguns bem me livrou o Senhor. Um dia num passeio a Braga vi um grande grupo de Religiosas e disse a uma senhora que ia connosco, gostava de passar algum tempo num convento para ver se tinha vocação, e ela disse-me para saber se tinha vocação que procurasse um Padre Espiritual para fazer um discernimento, ela própria me levou a um Sr. Padre Passionista ao convento de Barroselas e ainda vive lá hoje. Fui falando com ele. Umas vezes eu estava animada outras vezes queria desistir não me achava digna. Um dia fui lá mesmo pronta a desistir dizendo porquê, ele ralhou tanto comigo, disse-me que digno não era ninguém e que quando Deus chama não se brinca… Esta última frase nunca a esqueci e vim na altura todo caminho para casa a repeti -la. Esta frase ficou-me gravada noite e dia e resolvi continuar a caminhada. 

Apoio familiar no chamamento: – Quanto ao apoio familiar, eu fui pondo o problema muito ao de leve. Em relação ao meu Pai pareceu-me que ficou muito Feliz, a minha Mãe opunha-se severamente, ao ponto de ir falar sem eu saber, com o Sacerdote que me acompanhava, e disse-me depois como uma grande vitória! O Sr. Padre não me disse, no entanto deu-me a entender que eu tinha que aguardar mais tempo, porque a minha Mãe não estava preparada para me ver sair… Os meus irmãos admiravam a minha atitude depois de verem tanta oposição da minha Mãe. A minha irmã mais velha acompanhou-me desde o primeiro momento, sempre com muito carinho, só ela sabia as minhas confidências. Eu não tinha coragem para informar os Pais do dia da saída, mas ela esteve sempre comigo, dando-me conselhos e ainda me acompanhou em todas as dificuldades até aos dias de hoje. 

Partida ao encontro de Deus – Deixei a casa de meus Pais aos 24 anos, foi um processo bastante longo, primeiro eu visitava as Irmãs Missionárias de Maria em Arcozelo Barcelos, gostava muito daquele convívio tinham bastantes noviças e eu já assistia a alguns encontros de formação, sentia muita simpatia, mas não tinha tido “aquele toque” principal no profundo da alma para dizer o “SIM”. Também percebia que o Sacerdote que me orientava, tinha uma grande admiração, pela Espiritualidade da Serva de Deus Maria da Conceição Pinto da Rocha, ia dando umas pagelazinhas sobre ela e com escritos dela que de início nada me diziam. Mas quando foi editada a primeira Autobiografia, com alguns escritos da Serva de Deus, ele emprestou-ma e eu li e reli este livro e encontrei nele a semente da minha vocação que permanecia em mim escondida há muito tempo e que eu sem saber ia abafando por outros caminhos normais a toda pessoa humana. Não sei o dia nem o mês, mas sei que passei uma noite inteira de joelhos junto à minha cama dizendo o meu Sim a Jesus, para uma entrega com Ele e com Maria junto à Cruz. Esta noite e este Sim têm-me acompanha a vida inteira, principalmente nos momentos difíceis da vida, em todos os momentos de solidão e fracasso, na aridez, incompreensões, nas fragilidades e nas tentações de desistir… E então – no dia 31 de Janeiro de 1969, saí pela primeira vez da casa de meus Pais. Um dia que só há UM e que o não Consigo descrever!!!! 

Instituição de Ministérios: – Não percebo bem esta pergunta, nós religiosos e Religiosas da Vida Consagrada, não pertencemos à Hierarquia da Igreja, estamos inseridos no Sacramento do Matrimónio, é um Matrimónio com Cristo para O seguir segundo o carisma de cada Instituto. O Carisma das Irmãs Reparadoras Missionárias da Santa Face, resumido pela Fundadora é: “É continuar a Oferta Redentora de Cristo no Calvário e a Missão de Maria junto à Cruz, em comunhão com o CORPO MISTICO DE CRISTO na IGREJA, participando nos Méritos de Cristo, em Mistério Pascal pela Salvação do Mundo. 

Definição de “Vida” – Quando penso na minha vida ou na vida de todos os seres humanos, desde que nascem até ao momento da partida para Deus, lembra-me sempre o GRANDE MISTÉRIO do ACTO DE HUMILDADE DE DEUS AO FAZER-SE HOMEM. É analogia com vinda de Jesus ao mundo. Deus tomou Corpo humana em tudo igual aos homens, menos no pecado. Assim Jesus ao nascer assumiu a condição humana com todas as fragilidades, teve que fazer toda a aprendizagem, também foi tentado, as mesmas tentações que todos nós temos, disse Sim ao Pai, assumindo todas as consequências, tornando-Se assim para cada um de nós: O CAMINHO A VERDADE E A VIDA. Assumindo o pecado de toda Humanidade, segue até à Cruz, cumprindo a Missão que o Pai Lhe confiara até à Plenitude do seu Infinito AMOR! A cada um de nós acontece o mesmo, nascemos, trazemos uma missão connosco, que nos acompanha por altos e baixos, com o dom da liberdade e com a graça de Deus… e, só Deus sabe, onde cada um pode chegar.    

Virtude Religiosa: – A virtude que eu mais admiro numa Religiosa é o silêncio, mas aquele silêncio transparente, aquele silêncio que passa despercebido, anónimo, sem desejar a admiração que só a Deus pertence. 

Percurso: – Não sei, já tenho tantos anos de Vida Religiosa, com muitos êxitos e muitos fracassos. A minha vida evangélica, de início trabalhava nos bairros pobres de Lisboa, visitas a doentes inscritos numa Assistência Paroquial, como catequista noutros bairros pobres. Lembro tudo, por vezes, com muita saudade e também com ação de graças. No meio de muitas experiências vou contar uma que também nunca me esqueceu. Visitava um hospital com um grupo organizado, um dia por semana, a mim e a outra Religiosa, naquela altura bastante mais idosa que eu e de outra Congregação, foi-nos confiada uma enfermaria com cerca de 60 homens, alguns destes doentes permaneciam na enfermaria bastante tempo, eles ficavam muito felizes quando nos viam, a mim chamavam-me a “menina” formava-se ali como uma grande Família no Senhor. Reparei que havia ali um que nunca tinha visitas de família e estava ali há muito tempo, conversava-se um bocadinho com todos, mas como eram muitos não dava tempo para grandes conversas, era regra do grupo não pôr imposições espirituais a nenhum doente, as visitas eram uma presença fraterna e de comunhão em nome da Igreja em geral. Como aquele senhor estava ali há tanto tempo, um dia lembrei-me de falar com ele mais longamente, então soube que ele não tinha nenhuma família e que estava ali até que decidissem dele. Perguntei-lhe se não gostaria de falar um pouco com algum Sacerdote e respondeu que sim com um sorriso, como nunca vi lá o Capelão, embora soubesse que de vez enquanto havia Missa no hospital, lembrei-me de escrever um bilhete e colocá-lo debaixo da porta da capela, entretanto disseram-me que a capela estava inativa e estava a servir para arrumos e quando havia Missa em dias de Festa era celebrada nas enfermarias. Fiquei triste, mas pela graça de Deus, alguém foi lá colocar arrumos e viu o bilhete levando-o, talvez, ao próprio Capelão. Na semana seguinte ia com a ideia de continuar aquela missão, e qual foi o meu espanto o senhor estava morto no chão e estavam a arranjar a cama para lá porem outro… Tive um aperto no meu coração, já não podia falar mais com ele… o almoço ainda estava inteiro na mesinha da cabeceira. Perguntei a um que estava numa cama perto dele, quando é que ele morreu? Há um bocadinho. Perguntei: o Sr. Padre esteve aqui? Respondeu-me: Sim menina, sim menina. Olhe, o Sr. Padre veio hoje, esteve a falar com ele, depois mais tarde ele partiu. Compreendi que aquele senhor há tanto tempo abandonado estava à espera daquele momento! Não somos nós que fazemos nada, o Senhor por vezes pede-nos apenas um passo. 

Alma febril: – Para mim uma alma febril, é uma alma que é capaz de correr o infinito para a maior glória de Deus que é a Salvação de todo o mundo. Completo o pensamento com uma frase da nossa fundadora: «Ser Missionária oculta, escondida no Coração de Jesus, n`Ele e com Ele ir pelos desertos sem Deus, sem pão sem amor». 

Profissão: – Um Varredor de rua, é um profissional que cumpre o seu trabalho com toda a dignidade e nobreza como um Presidente da Republica, um Primeiro-ministro, um Médico, um Professor, etc. Cada um à sua medida cumpre a missão que lhe foi confiada, para o bem comum, continuando e colaborando na Missão Criadora de Deus. 

Missão: – Ao longo da minha vida, o senhor deu-me bastante experiência de conviver com pessoas na fase final, onde me vejo cada vez mais retratada, mais serenos ou menos serenos todos temos esse combate que nasce connosco. Todos os homens e mulheres, travaram uma batalha, ao longo da sua existência, para terem uma vida digna, esta batalha só termina, quando nós terminamos a nossa missão na terra. Na fase final o Senhor revela-nos, ao mesmo tempo, o rosto mais profundo que Ele revelou na Cruz: a Face Humilhada do Servo Sofredor, que é o Rosto da Misericórdia do Pai! Olho, olhando…para mim mesma e creio que todo o sofrimento foi e é assumido pela Cruz gloriosa de Cristo! Quando vou distribuir a comunhão aos doentes encontro quase em todos uma ânsia de receber Jesus na Eucaristia. Por vezes dizem agora já não posso ir à Igreja… Digo-lhe: quando podíamos ir fomos, agora vem Ele a nós para nos consolar, para ficar no nosso coração, para nos pedir a nossa Oferta com Ele, continuando a Redenção do Mundo. 

Arrependimento: – Desejo ser cautelosa tanto no que digo como no que faço, nem tudo corre bem, temos que contar com as nossas fragilidades humanas, que muitas vezes se impõem sem o desejarmos. Mas tenho a dizer que muitas vezes me arrependo mais pelo que digo do que pelo que faço. 

Perspetivas: – Como gostaria de ser fiel até ao fim! Não sei o tempo que me resta, cada dia, é um dia, sinto-o como uma manifestação clara da Misericórdia do Pai, que Se manifesta em Cristo Crucificado e Ressuscitado. Como gostava de viver profundamente este Mistério Pascal de morte e ressurreição! 

Despertador: – Para mim representa a presença do Espírito Santo, no nosso coração, todos nós experimentamos os gemidos do Espírito, que clama em nós dia e noite, com apelos ao Infinito! Assim como o Espírito Santo atua no mundo e na Igreja para nos purificar do pecado, atua também no coração de cada cristão. Dizia Jesus: ”Quem tem ouvidos oiça….” Já sabemos que todos temos que passar a conhecer o Silêncio do Sábado Santo, que desemboca na alegria do Domingo de Páscoa! 

Acordar: – Não é fácil acordar os que estão dormindo, também não é fácil acordar a mim mesma…conheci algumas pessoas na minha vida que muito admirava, pela sua loucura de amor, algumas vi chorar por sentirem que Deus não era amado e por todas as formas elas mostravam o zelo pela glória de Deus. Conheci uma que me acordava e ainda me acorda a mim própria, pois nós de tudo podemos fazer um ato de amor pela glória de Deus e pela salvação do mundo! Há “Responsabilidades”, a quem muito foi dado muito será pedido… Lembro-me muitas vezes a definição do monge: “O Monge é um homem que reza e que chora pelo mundo inteiro”. Diz Jeon Lafrance: “Quando não houver pessoas a rezar pelo mundo, o mundo acaba”. Cairá sobre ele a maldade dos homens. Sinto muitas vezes angustia, pensando nisto… ao mesmo tempo tenho confiança em milhões de anónimos que entregam a sua vida no silêncio da oração, no abandono e no sacrifíciosuplicando a Deus Misericórdia e Deus assim a tem manifestado, vemos através dos Santos que se Têm revelado nos últimos tempos!… 

À sombra da bananeira: – Infelizmente todos temos um bocadinho de tudo e não podemos negar que a vida para muitos é difícil. Medito muitas vezes nos casais jovens dos nossos tempos as dificuldades que têm para conciliar o trabalho com a formação duma Família. A vida é um combate permanente! Mas em relação ao transcendente, Jesus deixou-nos lições profundas, podemos meditá-las nas suas Parábolas, em todo o Novo Testamento, mas muito em particular nos Evangelistas S. Mateus e S. Lucas! 

Leitura: – Tenho já bastantes anos de Vida Religiosa que me deram oportunidade de ler muitos livros, recordo alguns que me ajudaram muito: Stª Teresa de Ávila, S. João da Cruz, Stº Agostinho, Columba Marmion, Cafarel, François Varillon S.J e para a Oração sobretudo as Cartas de S. Paulo e os livros de Jeon Lafrance, não esquecendo nas “horas” mais amargas a “Imitação de Cristo” 

Reflexão: – Por agora gostaria de ficar por aqui, resumia um pouco da minha súplica ao Senhor com um Hino do Ofício de Leituras da Liturgia das Horas: 

 

Um novo coração me dá Senhor 

O qual a Ti só teme, a Ti só ame, 

A ti meu Deus, meu Pai, meu Redentor. 

 

Por Ti suspire sempre, por ti chame, 

Por Ti me negue a mim e tudo negue, 

Por ti saudosas lágrimas derrame. 

 

A Ti busque, a Ti ache, a Ti me entregue, 

Com tão intenso amor, com tal vontade, 

Que nunca mais de Ti me desapegue. 

 

Ó bom Jesus por tua piedade, 

Não Te escondas de mim, isto Te peço; 

Que sem Ti tudo enfim é só vaidade. 

 

Muito pedi, Senhor, pouco mereço; 

Tão pouco, que não Te mereço nada, 

Se o teu muito ao meu nada, não dá preço. 

 

Esta alma tantas vezes desviada 

Do caminho do Céu, Tu encaminha; 

Que se por Ti não vai, vai muito errada, 

Doce Jesus, doce esperança minha. 

 

A finalizar a entrevista, a Irmã Teresa abriu o seu coração revelando o seu amor e proximidade com o povo de Tregosa: 

Uma terra que muito amo e da qual nunca perdi a união e comunhão com este bom povo, o qual admiro também pela sua própria unidade e colaboração em tudo o que é “Bem-fazer”, tanto ao nível humano como ao nível espiritual. Sinto admiração e amizade por toda aquela gente linda, da qual também sinto todo o carinho, até dos mais novos… que de alguns já conheci os “Trisavós”. 

Muito vos amo ó gente linda da minha terra. 

 

A finalizar: Com muita amizade no Senhor a Irmã Teresa Miranda. 

 


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